23 abril 2009

Tão esporádica quanto às más noites de sono – ou de ausência do mesmo – que eu tenho – ou não, enfim – é a visão que me ocorre nestas mal-vindas e não saudosas fatídicas ocasiões, não devido somente à nebulosa onírica que envolve e gravita pesadamente inerente aos detalhes e acontecimentos impressos nos frames imateriais deste vídeo exclusivo e inacabado do meu cérebro - que trataremos logo mais em breve - mas sim à impertinência de isso acontecer justamente comigo, sabe?
Se ainda que eu fosse um imundo gordo seboso ou tal qual o primeiro parágrafo de descrição, ou seja lá o que for aquilo, sobre o Jô, segundo os editores voluntários do Desciclopédia, seriam muito mais inteligíveis e digeríveis as noites de insônia, biologicamente falando, afinal, com um grande e bem adestrado sistema digestivo, sempre estimulado com um estilo de vida pendendo ao absoluto sedentarismo acarreta no acúmulo de gorduras e na quantidade e qualidade de sono insuficiente, e, quanto às imagens desprovidas de perfeita e completamente daquilo que conhecemos por sentido. Mas não.
Em contrapartida, sou delgado e saudável, bastante esperto o bastante não exatamente inteligente, leio por interesse, por me identificar com o que quero ler, por puro hedonismo e culto ao eu inculto da coisa mesmo, não pra expor, vez por outra, num vernissage meia-boca, em algum gueto pretensiosamente cultural, algo do tipo: “As Melhores 101 Capas, Histórias & Títulos De Livros Que Eu Quase Li Em Fevereiro”; tampouco para impressionar os contáveis fiéis seguidores e zumbis devotos de uma religião baseada na mentira intelectual que consiste no Voto de Engorda, não acabar o que o iniciado iniciara, tomar vícios e idéias emprestados e adorá-los, tendo-os como semideuses, ou mais, ou santos, ou quase algo próximo disso ou daquilo, e, o principal, a cereja do bolo: supostamente venerar 26 deus distintos em templos que apetecem incautos ao martírio induzido do A ao Z, literalmente, porém, tais deuses têm poderes totais de equivalente magnitude, poderes esses que permitem e dão suporte à persuasão, auto-afirmação e autoflagelo, já que torna seus membros numa chacota coletiva ambulante e espalhada por onde há chão, sendo que, também supostamente, em retribuição à obediência, servidão e martírio, os deuses lisonjeados derramar-lhes-iam a benção e o dom da sabedoria sobre a irmandade.
¾ dos adeptos desta crença em ascensão aguardam fervorosamente em vigília, com um olho no Machadinho de Assisinho e outro no Dan Brown, que isso aconteça, os outros ¼ desistiram e estão estudando Filosofia em faculdades privadas.
De toda a forma, a estrutura, mais precisamente a sala de cinema onde as estranhas imagens são exibidas repetidamente com periodicidade oscilante e sem fim é o meu crânio. O que, de fato, já é brutalmente chato e dispensável, ora porque é absolutamente incômodo, ora porque há instantes em que eu me encontro remoendo essa história toda, buscando motivos pra não achar nonsense o que é visto, sem sucesso aparente. Há um terceiro movimento em que me vejo elaborando teorias e hipóteses e a única teoria que eu formulei fora: “Tudo é uma ilusão! Sem lembranças nem projetos”. Parecera-me tanto com pensamentos recorrentes de um porco deprimido, criado em apartamento, fruto da solidão e da poluição da capital, que acabei por abandonar, e também pelo fato de não ter cientificidade e, na real, não é, nunca foi e nem será uma teoria.

(continua)